sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Desvendando o glamour da higiene europeia.

Em janeiro passado (26/01/2014), a Folha entrevistou nove estrangeiros que moram em São Paulo e pediu para que listassem suas impressões sobre a cidade. Um irlandês comentou que o brasileiros tomam muito banho. Completo dizendo que os brasileiros tomam muito banho enquanto vivem no Brasil.

Se você ficar hospedado nas redes de hotel aqui na Inglaterra, pelo menos na rede do Holiday In, você mantém o ritmo de banhos tupiniquins. A água é deliciosamente quente, você pode planejar sua agenda em baixo do chuveiro e repensar nos erros do passado como se estivesse abaixo da linha do Equador.

Quando você aluga um apartamento para morar, a coisa não é bem assim. Na hora que você assina o contrato de locação, ninguém o avisa que seus banhos longos acabaram-se. Que você não poderá mais recitar “O Guarani” embaixo do chuveiro e nem cantar “Tarantela”, talvez um rápido “Atirei o Pau no Gato” em ritmo acelerado.

O senhorio nos disse: “Se vocês não gastarem água quente durante o dia, terão água para tomar banho à noite”. Depois, em caixa alta, fonte Arial, tamanho quarenta, ele completou: “Mas em caso de emergência, vocês tem a opção de ligar o aquecimento elétrico, mas é muito caro (essa última parte em fonte Arial, caixa alta, tamanho quarenta e dois em negrito e sublinhado).

Mais tarde compreendemos que não gastar água quente durante o dia, significa não tomar banho ao acordar para poder tomar banho antes de dormir, talvez lavar a sobrancelhas.

Ainda não recebemos a conta de energia para decidir qual dos banhos serão banidos do nosso cotidiano, estamos arriscando e ligando o aquecedor elétrico à noite.

Mesmo assim, me vejo tomando banho como meus antepassados italianos no século dezenove, tenho que decidir qual parte do corpo vou contemplar, lavar o corpo todo virou um verdadeiro luxo.

O mesmo irlandês disse que os brasileiros escovam os dentes a cada refeição (o que me parece óbvio), e que na Irlanda a higiene dental não é tão importante. Aqui, também, parece não ser importante, nunca vi alguém com aparelhos ortodônticos e algumas mulheres, até que bonitas, quando sorriem você tem vontade de dizer: “Querida mantenha-se sempre séria, please!”.

Uma professora panamenha disse que as brasileiras tem mania de limpar tudo com água sanitária, calçadas, casas, carro e, que talvez, até o cachorros.

Aqui a coisa é mais simples, na compra de supermercado, você compra no máximo três ou quatro itens de limpeza. O banheiro não tem ralo, então a limpeza é na base do paninho. A cozinha é conjugada com a sala, então o piso é carpete. Um carpete ótimo, desses que não aparece a sujeira.

Na minha primeira compra de supermercado fui até a prateleira pegar uns panos de limpeza, o rapaz que estava fazendo compra ao meu lado, olhou-me indignado e disse alguma coisa que não entendi, mas que me pareceu ser o seguinte: “Você vai agachar para limpar o chão, ficou louca?”. Pega essa vassoura cabeluda que é muito mais prático”. Olhei para o carrinho dele e vi a vassoura cabeluda, dessas que só vemos no Brasil sendo usadas pelas faxineiras dos shoppings ou dos aeroportos. Olhei para ele e disse: “ That’s good idea!”. Devolvi o pano e peguei uma vassoura cabeluda. Ele deu um grito de alegria como quem havia acabado de libertar a Escrava Isaura.


O sistema de iluminação aqui é daqueles que escurecem o ambiente, isso é muito bom porque você passa a não enxergar a sujeira, você deixa de perceber as rugas no rosto, nem nota as sobrancelhas crescerem fora de contexto e muito menos os cabelos brancos. E, assim, a vida vai ficando mais simples.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014


                                                               WHITE POWER: AS PEGADINHAS DA LÍNGUA.


Um conhecido que estava visitando a Inglaterra (não é a Tia Lenita, porque ela não saiu do Brasil), tinha o hábito de usar talco nos pezinhos para evitar as frieiras, contudo, com a correria em fazer malas, passaportes, cartões de créditos, passagens áreas, ele esqueceu de colocar o seu talquinho na necessaire.

Então, fomos até a farmácia comprar tal objeto de desejo, mas não sabíamos e nem imaginávamos como falar "talco" em inglês e esquecemos de procurar no amigo "google".

Procuramos pelas prateleiras da farmácia, que mais se parecia com um supermercado do que propriamente com uma farmácia, e não o encontramos.

O jeito foi perguntar ao funcionário: Please, I'm looking for that white powder that people use to spend on baby bootie. Can you help me? O funcionário olhou para cara dele e disse: Talcum?



terça-feira, 14 de janeiro de 2014

A Troca da Guarda





Só mesmo uma caipira do interior de São Paulo (leia "interior" com o "erre" puxado) poderia acordar de madrugadinha, engolir o café da manhã e sair patinando pelas ruas que
amanheceram com uma leve camada de gelo, com a finalidade de assistir a famosa troca da guarda no Palácio de Buckingham.

Não foi tão simples assim, chegamos no ponto de ônibus com um minuto de atraso por conta das escorregadas que levávamos pelas ruas. Acontece que aqui é a Inglaterra, e os ônibus e trens obedecem rigorosamente o horário britânico, não é lenda, não é ficção científica, é real. Chegamos às 8:29 e só vimos a traseira do ônibus indo embora, depois de parar às 8:28 no ponto onde deveríamos estar.

Esperamos o próximo ónibus e seguimos até  Milton Keynes Train Station, onde pegamos um trem para Londres, e depois o metrô até  Victoria Station, andamos por volta de quinhentos metros e lá estava o Palácio de Buckingham, tão lindo e majestoso!

Chegamos exatamente às 11:30 horas, quando iniciam a troca da guarda, porém, antes de nós, chegaram os japoneses, os alemães, os espanhóis, os portugueses, os argentinos, os chilenos, os mexicanos e muitos brasileiros (e como tem brasileiro nesse planeta).

Todos posicionados nos melhores lugares em frente ao Palácio. Ir a Roma e não ver o Papa? O jeito foi subir na grade e manter o equilíbrio para assistir ao espetáculo. 

Confesso que  me senti  ridícula naquela posição, uma mãe de família trepada na grade do Palácio de Buckingham, parecia uma adolescente tietando um pop star. É um misto de sentimentos. 

Há muita beleza naquele  balé marchado de  movimentos precisos,  que misturam passado e presente, tradição e modernidade. É a marca do passado riscando o presente como forma de não ceder à nossa moderna maneira de existir.

E os modernos habitantes do mundo novo portando  ipods, tablets, câmaras fotográficas de última geração brigando pelo melhor lugar para assistir ao velho. Por um momento éramos todos britânicos, súditos da Rainha, alienados pela magia do passado.

A bandeira estava hasteada até o topo do mastro indicando que a Rainha estava no Palácio.
Ela não é minha Rainha, acho até estúpido essa história de Rainha em pleno século XXI, mas se ela tivesse aparecido na janela, eu teria me emocionado.

Não sei que sentimento é este, mas eu estive lá e adorei o que vi, por mais ridículo que possa parecer ser.




segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Esquentar a barriga no fogão e esfriar no tanque, nunca mais!

Esta frase tão machista e popular  no Brasil não versa  sentido na Inglaterra, porque aqui não tem tanque.

É isso mesmo, todos os apartamentos que visitamos para alugar não tinham lavandeira e não tinham tanque para lavar roupas.

As máquinas de lavar roupa ficam na cozinha, assim como a geladeira, assim como a mesa, assim como as cadeiras.

Varal nem pensar, se você pendurar as roupas elas irão congelar, para secar precisa de Sol, e o Sol aqui é bem modesto. Ele põe a cara para fora lá pelas oito da manhã e quando são quatro horas da tarde já bate  em retirada.

Os casacos e outras roupas mais fina você leva à uma lavandeira, as demais você junta tudo e enfia numa daquelas máquinas enormes e coloca as moedinhas. 

As moedinhas não são tão moedinhas assim, para cada lavagem você gasta em torno de 5,50 pounds, se você fizer a conversão para real dará em torno de R$22,00. E depois você tem que por na secadora e vai gastar mais 5,00 pounds.

Diante dessas cifras você perde o pudor latino e o preconceito com as cores e lava  as calças jeans com meias, cuecas e camisas. Não importa a cor, o tipo de fibra, é a lei da igualdade para todos.

O que era branco vai ficando cinza da cor do inverno inglês. Cinza é uma linda cor, tem até 50 tons. 

(Quadro: Lavadeiras, 2007, Denise Helena Ckless)

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

JACKET POTATOES  OR INDIAN FOOD


Na contramão do patrimônio histórico cultural, a variedade de pratos aqui na Inglaterra se resume a sete diferentes opções: sendo seis de batatas e a sétima de peixe com batatas.
As batatas inglesas, conhecidas como “Jacket Potatoes”, são maiores que as nossas, a casca é mais densa e existem basicamente seis recheios diferentes.

“You can choose the filling: Barbecue pulled pork (482 cal); Fresh coleslaw (669 cal); Chilli con carne and sour cream (540 cal); Tuna Mayo (479 cal); Cheese (588 cal); Five Bean Chilli (405 cal) ”. Ou, seja, churrasco de porco desfiado, salada de repolho fresco, feijão (tipo chilli) com carne, atum, queijo ou cinco tipos de feijão.

Na dúvida você pode escolher qualquer um dos recheios porque todos terão um sabor parecido com nada, o que salva é a CERVEJA!


A sétima opção e a mais famosa é o “Fish and Chips (1258 cal) : um filé de peixe à milanesa, batatas fritas, salada (ou ervilhas) e molho tártaro. Não importa saber o nome do peixe, porque todos terão o mesmo sabor, algo assim, parecido com coisa alguma carregado de óleo.

Por outro lado, se você gosta de comida com muito tempero, aqui existem inúmeros restaurantes indianos. Se alérgico à pimenta deixe à mão pelo menos dois litros de água e um canivete suíço, para o caso de uma crise alérgica aguda fechar sua glote. Assim, o seu parceiro poderá lhe fazer uma traqueostomia, sem maiores dificuldades.

Ao contrário dos ingleses, os indianos são grandes adeptos aos temperos, então se você escolher um frango ao curry, saiba que eles não estão querendo dizer que será um frango com sabor levemente puxado ao curry. O frango virá mergulhado, afogado, enterrado no molho curry, e assim será com todos os outros temperos. É bom ter na bolsa um extintor de incêndio.

Leve sempre em conta que tudo aquilo que entra, tende a sair. Na hora da gula, geralmente, não avaliamos os estragos posteriores. Para o viajante é primordial pensar a priori no que virá a posteriori para não ter experiências desagradáveis.

Observa-se que aquilo que falta na culinária de um, sobra na culinária do outro. Talvez o espírito de cada povo vem estampado em sua própria culinária: em algumas falta sal, em outras sobra pimenta.


How about me? I love jacket potatoes!!!!!

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

The breakfast : uma bomba relógio

O café-da-manhã dos ingleses contém ingredientes o suficiente para a fabricação de uma bomba relógio caseira: feijão, ovos mexidos  ou fritos e linguiça de porco (todos sem tempero).

Você já provou uma linguiça de porco sem tempero? É muito interessante porque dá a impressão que você está literalmente mordendo o porco.

Faltou falar da torrada “bem passada” que eles somam aos ingredientes acima, mais um copo de leite com café ou chocolate e o iogurte natural com cobertura de calda de frutas vermelhas.

Aconselho os meus conterrâneos, tão acostumados ao pão com manteiga e ao pingado, não irem com tanta sede ao pote. É preciso parcimônia para não se transformar em um balão quicando pelas ruas da Inglaterra prestes a anunciar um novo Big Bang.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

What’s the catch, God?

Na prática entendemos porque fala-se que Milton Keynes (UK) é uma cidade sem alma, então, decidimos morar em Bicester (leia-se Bister), uma cidade inglesa típica, localizada entre Buckingham e Oxford.

O primeiro apartamento que fomos visitar era “perfect”, aconchegante, quarto com armário, cozinha completa, na área central da cidade, ao lado do supermercado, em cima da farmácia e o aluguel dentro do que havíamos planejado a  pagar.

Pagamos a taxa de 150 pounds para ele sair da lista de imóveis “for rent” e na segunda-feira de manhã, mesmo com os tablóides anunciando ventos de 150km/h, tomamos o ônibus para Bicester e fomos com todos os documentos fechar o contrato de locação.

Durante a viagem de ônibus fiquei pensando como tinha sido fácil encontrar esse apartamento perfeito! Será que havia alguma coisa errada? Como já há algum tempo Deus vem me confundindo com Jó, eu Lhe perguntei: God, what’s the catch?

Chegando em Bicester resolvemos passar primeiro na frente do nosso futuro apartamento antes de entrar na imobiliária, e lá estava a pegadinha: uma pequena entrada ao lado do prédio com uma plaquinha minúscula anunciado o inferno: “NIGHT CLUB AND KARAOKE”.

Como um músico de ouvidos apuradíssimos pode viver ao lado de um KARAOKE?
Fomos perguntar aos vizinhos e eles confirmaram que havia muito barulho por lá. Voltamos na imobiliária e nos disseram que só funcionavam três vezes por semana até a três da manhã e blá,blá, blá.

Não viemos morar na Inglaterra para viver ao lado de um KARA-SEI-LÁ-OQUE!!!!!!
Fomos visitar outro imóvel, também próximo ao centro, um pequeno chalé de um quarto que estava sendo reformado. Tudo perfeito até eu olhar pela a janela do quarto! Ela abria para o cemitério!

Imagina eu acordando de manhã e abrindo a janela: Bom dia Dia, bom dia “Falta de Sol”, bom dia pessoas que já morreram! Dormiram bem?

Se eu tiver que escolher entre ser vizinha de um NIGHT CLUB ou de um CEMITÉRIO é claro que prefiro o primeiro que tem mais vida, porém o Ricardo ficou encantado com a segunda opção.

Existem dois tipos de pessoas que ele tem verdadeira admiração: aquelas que ainda não nasceram e aquelas que já se foram!